Jean Léon Gerome - A verdade saindo do poço de 1896
Texto adaptado por Lúcia Helena Maniglia Brigagão sobre a parábola judaica Verdade e Mentira.
Certa vez a Verdade e a Mentira se encontraram. Caminharam
juntas um bom tempo, através de longo caminho, comentando sobre tudo o que
viam. A Mentira estava muito à vontade, a Verdade, nem tanto. À beira de um
riacho, a Mentira comentou quão convidativa estava a água, como se harmonizava
com a temperatura do ar, no que a Verdade concordou. Perto dali, encontraram
belo poço, abastecido pela água do riacho e coberto lindamente pela vegetação
local.
“Vamos entrar no poço?”, convidou a Mentira. Parece que a água
nos está chamando!”
A Verdade, ressabiada, não concordou de pronto, mas ao
experimentar com a mão a água do poço, percebeu que realmente estava deliciosa.
Tiraram as roupas, entraram na água e continuaram a conversar. Num descuido da
Verdade, porém, a Mentira saiu muito depressa de perto da companheira, subiu a
pequena ladeira lateral e roubou as roupas da Verdade que estavam nos galhos da
árvore, à margem dali. Mesmo sob protestos da companheira, vestiu-as e saiu
correndo, deixando a Verdade para trás, totalmente nua, porque ela se recusou a
vestir as roupas andrajosas da Mentira e imaginou, dentro de sua pureza e
inocência, que não teria do que se envergonhar se andasse daquela maneira até
recuperar seus pertences.
Não tendo outra opção, saiu a caminhar nua pelas ruas,
procurando pela Mentira, já vestida com suas roupas. Mas não foi bem sucedida.
As pessoas aceitaram bem a Mentira vestida com as roupas da Verdade, mas não
acolheram a Verdade nua, que foi-se vendo constrangida com os olhares de reprovação,
mesmo que todos soubessem do ocorrido, que suas roupas estavam em poder da
falsa amiga e usurpadora. Ao perceber a hipocrisia das pessoas que se mostravam
desgostosas e desagradadas por ver a Verdade nua, e aceitavam tão bem a Mentira
vestida com suas roupas, voltou para o poço, entrou nele e desapareceu para
sempre, escondendo sua nudez dos olhos da humanidade.
Desde então a Mentira perambula pelo mundo, vestida com as
roupas da Verdade e é bem aceita aonde quer que vá.
Há, no entanto, outra versão para o final. A Verdade, quando
voltou ao poço, recusou-se a vestir as roupas da Mentira e, por não ter do que
se envergonhar, saiu a caminhar nua pelas ruas das vilas e cidades. Percebeu
então que aos olhos de muita gente, é preferível encontrar a Mentira vestida de
Verdade, que a própria Verdade... nua e crua.